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terça-feira, 18 de março de 2014

Rádio comunitária resiste no bairro Jardim Veneza, em João Pessoa

Marcelo Ricardo

Respeitando com todo vigor qualquer tese contrária, como diria o causídico, eu, como testemunha da História, digo que o Partido dos Trabalhadores agora é de direita. Não sei se direita liberal, ou seja qual for essa tendência que impede as reformas, que estimula o capitalismo de Estado, que prefere fazer alianças e coalizões com elites políticas retrógradas. Concordo com o sociólogo Demétrio Magnoli quando ele afirma: “O Partido dos Trabalhadores surgiu contra a ordem, mas se transformou em um partido da ordem quando chegou ao poder. Hoje, é um partido da velha ordem.”

Isso me veio à mente conversando com meu compadre, companheiro de lutas e ex-petista Ricardo Marcelo, da Rádio Comunitária Diversidade do Jardim Veneza, um cara que é do meu bloco, um bloco que sai todo dia para animar a vida coletiva dos que acreditam em mudanças, um bloco que está sempre nas ruas, com ou sem carnaval, com ou sem esperança de avançar na busca do poder popular. Assim como muitos, ele acreditou que, com a vitória do Partido dos Trabalhadores, enfim seria dada a alforria para as rádios comunitárias. Esse militante do movimento de rádios livres e comunitárias se enganou, ficou com cara de tacho como alguém que tem a certeza de ter dinheiro na conta para sacar e chega no caixa eletrônica, digita e vê na tela: “Saldo insuficiente, transação não autorizada”. Isso num domingo à noite em uma cidade estranha. E a noite da perseguição e criminalização das rádios comunitárias continuou nos governos petistas, talvez com mais profundidade.  Agora, dez anos depois, estamos todos doentes, cansados e isolados.

Em recente encontro de lideranças populares com o deputado petista Luiz Couto, da Paraíba, a rapaziada que luta na Rádio Diversidade cobrou do parlamentar ações mais concretas para defender a democratização das comunicações. Esse deputado, homem de bem, sempre foi linha de frente nesse setor de batalha, mas hoje roeu a corda, não tem o que dizer ao povão das radcom, seu partido já foi claro sobre qual o lado que está nessa briga.

Marcelo Ricardo é um guerrilheiro da comunicação popular, um obstinado e bravo insurgente pelo direito à comunicação. Seu perfil não serve ao novo PT conservador. Imagine que esse rapaz discursa em ocupar rádios comerciais e partir para o enfrentamento! “Moreira não gosta desse discurso”, disse Marcelo, referindo-se ao Coordenador da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Estado da Paraíba – Abraço. Moreira diz que Ricardo é rebelde e teimoso. Não se enquadra. É cabeça dura, não entende a tal da conjuntura. Hoje, o PT prefere gente vazia, sem conteúdo, desligada, pessoal que veio ao mundo a passeio, sem perspectivas, sem objetivos. Gente boa de manipular.

A Rádio Diversidade não recebe licença do Governo para operar, já foi fechada pela PF, seus diretores processados e multados. O pessoal não desiste. Criaram o Centro Comunitário de Mídia no Jardim Veneza e vão à luta com o pessoal do Hip Hop, a associação do bairro, a Casa da Mulher e a rapaziada que curte comunicação comunitária. E seguem com o coração apertado, um microfone nas mãos e muitas lutas na folha corrida, vítimas e vilões de uma sociedade esquizofrênica.  

Fábio Mozart

www.fabiomozart.blogspot.com