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terça-feira, 10 de maio de 2011

A voz do povo na rádio comunitária



Zé Eduardo




“Historicamente, não é que o povo não tenha voz, nem a perdeu, a voz do povo foi roubada.”
Há mais de 500 anos quando os invasores aqui chegaram roubaram o ouro, a prata, o açúcar, o café, o cacau; roubaram também a palavra.


À força do chicote, calaram nossos antepassados. Indígenas e negros tiveram que baixar a cabeça e guardar silêncio, mas, esse silêncio não foi absoluto, vozes da luta e resistência, sempre se levantaram contra a dominação.


Milhares foram presos, torturados e assassinados. A história, contada pela resistência, mostra que o povo não se calou, sempre buscou alternativas para se comunicar.


As lutas, a resistência do povo levou a mudanças; claro que sempre a burguesia deu golpes no povo, a independência política alcançada no início do século 19, e a república, no final do mesmo século, nada mais foram que conchavos e golpes da burguesia sobre os movimentos organizados. Também tentaram manter o povo no silêncio, já que a comunicação se mantinha nas mãos da burguesia.


Com o século 20 vêm as principais revoluções na comunicação, surge o rádio, depois o cinema, a TV e no final do século o advento da internet abre caminhos interessantes, mas ainda o povo é mantido sob rédeas curtas.


Na década de 1960 com o advento do golpe que instaurou a ditadura militar, os mecanismos de controle da comunicação se ampliaram para impedir o acesso do povo. Técnicas apuradas de comunicação serviram muito bem para a alienação, massificação, enfim a dominação do povo. A comunicação no Brasil se manteve cada vez mais a serviço do sistema, especialmente do capital internacional, diga-se de passagem, norte americano.


As rádios e TVs comerciais passaram a apresentar uma ‘programação especial’ para manter o povo no silêncio. Houve um tempo em que se falava em ‘pão e circo’, pão velho certamente e circo da pior qualidade. Nos dias atuais já nem precisa mais de muito esforço, o pão na quantidade mínima para manter o povo trabalhando e assim manter o sistema, e o circo, cada vez pior.


No entanto, a luta pela democratização da comunicação avança, não obstante as investidas da mídia comercial que mantém sua metralhadora giratória voltada contra o povo e os movimentos sociais, criminalizando-os e condenando-os ao ostracismo.



As rádios comunitárias


Na década de 1990 a explosão das rádios comunitárias mostrou mais uma vez que é impossível calar as vozes da luta e da resistência. No final da década a lei de radiodifisão comunitária, 9612/98, contou mais uma vez com a ingerência das empresas de comunicação que engessaram a lei condenando as rádios comunitárias a se parecerem com serviços de alto falante, limitando potência, altura de antena e a propaganda, o que compromete sua sobrevivência.


Mas a insistência e persistência dos comunicadores populares, daqueles que acreditam na comunicação do povo, acreditam nas vozes que ecoam dos becos, esquinas, ruas e praças, vai mais uma vez dar a volta por cima e repercutir as vozes emudecidas pelo sistema.



Repercutir as vozes da comunidade


A rádio comunitária não pode simplesmente repetir a programação das rádios comerciais, tocar as músicas de sucesso fabricado pela mídia comercial. O fato de colocar o telefone no ar para o povo pedir música, sempre as mesmas músicas das falsas paradas de sucesso, não pode ser confundida com participação popular na rádio.


Portanto, as rádios comunitárias, nesse contexto, têm um papel fundamental, que é repercutir as vozes das comunidades à sua volta. Seja, contando sua história, suas lutas, suas reivindicações, mostrando suas mais diversas expressões artísticas, a música, a poesia, o teatro, entre outras expressões.


Há um cem número de organizações sociais que lutam para melhorar a qualidade de vida do povo – trabalhos de geração de renda, organização de idosos, mulheres, jovens, crianças e adolescentes, entre outros. Todas essas ações precisam ter sua voz repercutida na rádio, mas de forma organizada e preparada.


O fato de ser rádio comunitária e popular não quer dizer que a programação pode ser feita de qualquer jeito, sem a mínima preparação. O trato com os mais diversos temas precisa ter um mínimo de pesquisa, mesmo que seja para entrevistas com lideranças populares, para contar sua história.Por mais simples e curta, qualquer entrevista precisa ser preparada com antecedência.
É fundamental acertar com o entrevistado como será a entrevista e quais perguntas serão feitas, claro que no decorrer da conversa podem surgir novas perguntas, mas as principais devem estar preparadas. O entrevistado pode até sugerir outras perguntas.


Ao pensar em algum tema, é fundamental pesquisar e buscar lideranças das comunidades e movimentos que falem sobre o assunto, pois os mais diversos temas sempre têm repercussão na região e, sempre tem alguém em condições de falar, sem contar que o telefone pode ser colocado no ar para que o ouvinte possa também expressar sua opinião.


Fato é que as rádios comunitárias vieram para ficar e repercutir as vozes das comunidades. Essa é sem sombra de dúvidas uma etapa fundamental da democratização da comunicação, há outras etapas é claro e dessa luta não abrimos mão de participar.



Zé Eduardo é jornalista e radialista, membro fundador da Rádio Comunitária Cantareira