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domingo, 3 de junho de 2012

Por que rádio comercial e comunitária se parecem tanto?


Você vai rodando pelo interior da Paraíba, sintonizando as estações de rádio das cidadezinhas. A rádio poderosa da capital dá o tom. Isso na música que se toca, no radiojornalismo que se tenta fazer, até no sotaque e tom de voz dos locutores. A rádio famosa da capital, por sua vez, tem nas grandes redes nacionais seu paradigma.

Quando comecei a fazer rádio livre, na década de 70, a gente não imitava modelo de programação das rádios comerciais porque, simplesmente, na cidade não sintonizava nenhuma emissora, a não ser a poderosa Rádio Clube de Pernambuco em amplitude modulada, que naqueles tempos não havia a FM. Daí que a nossa estaçãozinha era uma usina de ideias. A criatividade rolava solta nas cabeças do pessoal que lidava com aqueles equipamentos toscos, mas não existia padrão nem patrão. A cultura local era a base de tudo. Fomos criando nossa forma de locução, nosso jeito de entrevistar, de atender ao ouvinte.

Com o advento das grandes redes com base no sudeste, as rádios ficaram todas parecidas. As vinhetas são padronizadas, o modo de fazer um programa foi ficando igual, a locutora das brenhas da Paraíba imita o sotaque sulista das vozes invasoras. Mas, e daí? Como fazer diferente se você só conhece um modelo? Por que procurar inovar se existe o risco do ouvinte estranhar e deixar de ouvir a rádio? Até a propaganda leva o jeitão das rádios comerciais dos grandes centros.

Essa questão de conteúdo é o grande nó das rádios comunitárias. Poucas emissoras que operam com outorga de comunitária preenchem os requsitos de uma autêntica radcom. E dessas, raras são as que ousaram fazer rádio diferente mesmo, com sua própria cara, desenvolvendo um estilo próprio. E deveria ser por aí, porque rádio comunitária é diferente de comercial, e isso tem que ficar claro assim que a gente sintonizar na frequência e ouvir um “apoio cultural”, uma chamada de grade de programação, uma música. Ser original, criativo, é mesmo difícil. Mas é fundamental que as rádios comunitárias parem e repensem seu jeito, e procurem fazer uma programação de qualidade. Jamais iremos trabalhar com o padrão técnico e com os profissionais das estações de rádio que cobram fortunas para veicular anúncios. Mas podemos fazer o diferencial com uma forma nova de fazer rádio.

No ano passado, a Sociedade Cultural Posse Nova República criou um Prêmio para a melhor rádio comunitária da Paraíba. Deixamos de entregar o Prêmio por falta de ganhador. O rádio que se faz aqui é ruim, e as nossas comunitárias imitam esse padrão desgastado.

Fábio Mozart

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