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terça-feira, 29 de abril de 2014

REFLETINDO SOBRE O PAPEL E FUNÇÃO SOCIAL DAS RÁDIOS COMUNITÁRIAS

Por José Eduardo Souza*
zeeduardusouza@gmail.com
Tenho refletido muito sobre nosso papel de comunicadores, sobre o papel da rádio comunitária, em especial nossa Rádio Comunitária Cantareira. Estamos no início do século 21, caminhando para metade da segunda década e a cada dia que passa o capitalismo neoliberal aprofunda ao extremo o individualismo e ainda a massificação e coisificação das pessoas, destruindo valores, culturas, laços familiares e, consequentemente, o senso de humanidade. Daí que vivenciamos tanta criminalidade, a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, e a marginalização dos movimentos culturais.
Ora, essa realidade não é por acaso, muito menos obra do destino ou vontade de alguma divindade, para aqueles que acreditam em Deus. Essa situação ocorre por vontade de homens, grupos sociais minoritários que precisam se manter no poder e, para tanto, buscam destruir o que de mais precioso tem o ser humano, a capacidade de pensar, de refletir.
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Nesse quadro, tudo passa a ser observado pela elite dominante e seus arautos da chamada grande imprensa, não com a profundidade necessária para se descobrir as causas dos problemas sociais, mas a partir do chamado ‘senso comum’, condenando a todos que lutam e acreditam num mundo melhor. Falo aqui da criminalização dos movimentos sociais organizados, que lutam para manterem-se mobilizados e que são vítimas de uma longa história de perseguição, julgamentos, condenações, sem a possibilidade de defesa.
Do ponto de vista cultural, o desastre é ainda maior. Vê-se hoje um tsunami de pseudoartistas, de ‘pseudas-manifestações’, que chamam de cultura, mas que não passam de engodo, de enganação para iludir, massificar e desviar a atenção das pessoas para o supérfluo, para a instantaneidade das coisas sem raízes, sem conteúdo, sem forma, sem cheiro e cor.
Fizeram isso com todas as manifestações culturais pasteurizando-as como convém à indústria cultural, como ocorreu, por exemplo, com o samba, a música sertaneja e o forró, a ponto de, para sobreviverem e manterem suas identidades, passarem a se autodenominar “samba raiz”, “sertanejo raiz”, “forró pé de serra”.
Fico me perguntando qual o papel de uma rádio comunitária nesse contexto? O que devem fazer os comunicadores de uma rádio comunitária?
Penso que nosso papel é muito importante e fundamental, principalmente por atuarmos onde estamos instalados. Temos que atuar como provocadores dos saberes quase apagados do meio do povo, como descobridores das manifestações puras de sua cultura, para ajudá-los a se apropriarem novamente dessa cultura. Para reaverem o que lhes foi roubado, mascarado. Nosso papel é mostrar aos mais novos nossas raízes culturais, também despertar o respeito e a reverência aos antepassados, que garantiram ao longo da história a sobrevivência dessa cultura.
Nesse sentido, alguém pode dizer, mas é preciso tocar certo tipo de música ‘porque o povo gosta’, ‘o povo pede’, ‘o povo quer’. Será mesmo que o povo quer? Será que povo não se acostumou com as porcarias que são apresentadas na televisão e nas rádios comerciais? Como podemos dizer que o povo quer esse tipo de música se não lhes foi dada a possibilidade de escolher, não foi apresentada outra opção?
Considero que temos uma missão fundamental nesse contexto, a de contribuir para que o povo se reaproprie de sua cultura.
Artistas regionais em entrevista na Comunitária Cantareira FM
Artistas regionais em entrevista na Comunitária Cantareira FM
Então, nosso papel, não é pura e simplesmente de nos recusarmos a tocar as músicas que tocam nas rádios e TVs comerciais, às quais classifico como produto da indústria cultural, mesmo as feitas por gente da periferia, que assim se portam, seduzidos pelo dinheiro e sucesso, mas com absoluta falta de consciência política, cultural e de cidadania. Quanto a esses, nosso papel é mostrar que o que reproduzem e divulgam não é seu, não fazem parte das suas origens culturais, da sua vida, da sua realidade. Que, pelo contrário, são estimulados exatamente para destruir seus valores, suas crenças e especialmente sua capacidade de pensar, de raciocinar. Nesse caso, sim, vale a pena se recusar a tocar a não dar espaço para o que pretende destruir a cultura popular genuína.
Lembro-me aqui de nossa querida comunicadora Roze Santos, que ao fazer propaganda de nossa rádio Comunitária Cantareira para seus vizinhos, diz: ‘ouça nossa rádio, lá toca as músicas que não tocam nas outras rádios’. Agora é preciso ir além, ou seja, ajudar o povo a perceber a enrolação a que são submetidos pela magia e pelo glamour dos meios de comunicação de interesse comercial e alienador.
Para garantir ao povo apropriação da sua cultura, penso que nosso papel de comunicadores vai além, quer dizer que somos e devemos agir como comunicadores educadores, isto é, precisamos fazer um processo de reeducação musical, primeiro de nós mesmos, para aprendermos a identificar o que vem da indústria cultural e que, portanto, não serve e o que é, de fato, manifestação da cultura de raiz, da cultura popular de verdade. Esse é o grande desafio, pois não podemos repetir as mesmices ou simplesmente imitar o que fazem os comunicadores das rádios comerciais.
O desafio está colocado.

*José Eduardo Souza (Zé Eduardo) é jornalista e radialista, membro fundador da Rádio Comunitária Cantareira, faz parte da equipe dos programas Brasilândia Encanta, Comunidade em Foco e é produtor e apresentador do programa Samba na Brasa. É também dirigente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.