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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares nasceu da cultura de rua

Em 3 de março de 1999, foi fundada a Posse Nova República. Em 20 de novembro de 2002, fundamos a Sociedade Cultural Posse Nova República, com o ideal de levar informações através do Hip Hop, trabalhando com jovens carentes da periferia de João Pessoa, nos bairros Ernesto Geisel, comunidade da Citex, Nova República, Favela da Tieta, conjuntos João Paulo II e dos Radialistas e parte do bairro do Grotão, setores de risco social que apresentam alto grau de violência.
O trabalho é de socialização com crianças carentes através de grupo teatral, oficinas de artesanato, de rima, dança de rua e outras atividades, onde se destacam a banda “Primatas do Mutirão” e o grupo de mulheres “P.R.E.T.A”.
O Hip Hop é um movimento de contestação, que critica a exclusão social e se envolve com projetos de resgate da cidadania, mudando a cara da periferia, dando voz aos que nunca tiveram voz.
A Sociedade Cultural Posse Nova República é liderada pelo rapper Cassiano Pedra, com a participação do poeta Gilberto Júnior, jornalista Fábio Mozart, a compositora Liziê Mangueira, os atores Lamark Ribeiro e Dandara, os jornalistas Dalmo Oliveira e Fabiana Veloso, o cineasta Jacinto Moreno, a artesã Adriana Felizardo, o artista gráfico Bilu, os líderes comunitários Gerimaldo, Valdomiro, Araceli, Marcos Veloso, Tânia, Brasil e tantos outros que desejam trabalhar voluntariamente para produzir teatro, música, dança e artes plásticas através do grafite, em projetos solidários, estimulando a auto-estima do negro, do jovem, do analfabeto, enfim, do povo que é excluído. Sabendo que a pobreza não é só a falta de dinheiro, mas também de educação, saúde e trabalho, os manos e manas do movimento Hip Hop querem contribuir com a melhoria da vida na periferia.
A Banda “Primatas do Mutirão” gravou sua primeira fita demo com a ajuda do “irmão” Chico Cezar. Ao se tornar uma organização não governamental, a entidade convocou as pessoas para discutir formas de intervir no cotidiano da comunidade, de forma positiva, e uma das idéias foi produzir programa de rádio direcionado aos jovens, “na onda do Hip Hop”, como forma de debater também os problemas da comunidade e a cultura do povo. No dizer do rapper Cassiano Pedra, “na periferia não tem só droga e violência, lama e poeira, pobreza e sujeira. Aqui também existe arte, educação, música e poesia”.
Sugerindo uma linguagem de base popular, para atingir a juventude, identificando-se com o pessoal, foi elaborado um programa radiofônico, levando-se em conta o respeito ao modo de viver e ver o mundo pela identificação das características sócio-culturais dos ouvintes. Esse projeto foi levado à Rádio Comunitária de Cruz das Armas, de uma comunidade próxima, já que no Geisel não existe estação de rádio dessa natureza. Só que essa rádio é mais uma das inúmeras falsas comunitárias, sem qualquer aspecto democrático, de caráter popularesco sem ser popular, das que enveredam pelo simplismo alienante e vazio, ao tentarem imitar as rádios comerciais. A maior parte da programação é veiculação da pior qualidade de música, e o restante fica por conta dos programas evangélicos das inúmeras igrejas “de resultados”, que pagam para fazer o seu proselitismo. Nessa grade de programação, a Sociedade Cultural Posse Nova República não foi incluída.
Dessa forma, os companheiros decidiram dirigir suas antenas para a perspectiva de montar nossa própria rádio, como uma ferramenta de desenvolvimento da comunidade, atendendo às funções ética, qualitativa, instrutiva e de relacionamento que devem ter as rádios comunitárias, sendo antes de tudo democráticas. Não tivemos acesso ao conselho comunitário da Rádio de Cruz das Armas, simplesmente porque essa instância democrática não existe de fato.
A participação coletiva deverá ser a prática da rádio da comunidade, cujo nome, Zumbi dos Palmares, remete a histórias de luta que muito orgulha o movimento negro e popular. Nasceu assim a Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares, que já alcança a comunidade, sendo debatida nas reuniões, já fazendo parte das carências e aspirações do povo do lugar. O jovem militante já sonha com esse instrumento poderoso de conscientização política que é a rádio. O artista, o músico, o poeta, o cara que tem algo a dizer, já prepara sua forma de interação social através das ondas do rádio popular. O líder comunitário tem consciência do valor dessa ferramenta para a busca de soluções para os problemas do bairro, e a participação coletiva já é uma marca da Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares, que certamente enfrentará muitos obstáculos, situando-se no campo dos movimentos populares, onde os seus integrantes são comprometidos com os interesses e lutas dos setores sociais mais carentes. Só assim teremos o respeito e o reconhecimento da comunidade.

Do livro “Democracia no ar”, de Fábio Mozart